sexta-feira, 22 de setembro de 2017

RESENHA: A CORRUPÇÃO DA INTELIGÊNCIA, DE FLÁVIO GORDON

RESENHA: A CORRUPÇÃO DA INTELIGÊNCIA

Em seu livro, Flávio Gordon revela como a prostituição do que se convenciona chamar de intelectualidade frente aos anseios políticos e hegemônicos causou a corrupção da inteligência brasileira.

O livro se insere naquela categoria típica de obra descritiva das sociedades que acabam de despertar para a filosofia ao perceberem a tragédia final que se avoluma sobre um povo: a crítica cultural.

Seguindo os passos da grande influência geradora da obra – o filósofo Olavo de Carvalho -, Flávio Gordon descreve de forma irônica e, ao mesmo tempo, erudita e aberta, o estado degenerado em que se encontra a inteligência brasileira, graças aos intelectuais.

O livro é escrito com uma invejável e ampla visão dos acontecimentos recentes da história de nosso país, e lança mão de numerosas citações diretamente colhidas dos fatos de conhecimento público, aparentemente desconexos, porém, claramente interligados por uma mente capaz de estabelecer os nexos causais adequados, como o faz o autor.

O uso dessas citações, “cruéis fantasias” concretamente reais, nos mostra o percurso dessa grande derrocada de nossa capacidade de enxergar, interpretar e agir na realidade de forma adequada. A inteligência do povo brasileiro, e de muitos estrangeiros, foi progressivamente destruída, deturpada, cegada e redirecionada pelos agentes políticos travestidos de professores e condutores da mente alheia.

O povo brasileiro aprendeu a amar as banalidades e a elevar o indigno, menosprezando e profanando o que lhe resta de bom, belo e justo. Essa degradação do que é nobre, para abrir espaço para a ascensão do que é medíocre e suscetível à manipulação daqueles que são imorais, já fora muito bem descrita por José Ortega y Gasset em seu clássico “A Rebelião das Massas” e por José Ingenieros em seu “O Homem Medíocre”, uma leitura estranhamente familiar para qualquer brasileiro que tenha sido testemunha dos desgovernos petistas nas últimas duas décadas.

Descreverei alguns dos temas abordados em cada capítulo do livro, alertando desde já ao leitor que este é um resumo extremamente incompleto e incapaz de sintetizar a riqueza de detalhes e referências do autor, e que não substitui de forma alguma a leitura integral do original. Aliás, “A Corrupção da Inteligência” é um livro essencial para a compreensão de nossos tempos e de nosso Brasil. É um registro histórico que, se sobrevivermos por mais algumas gerações, revelará aos nossos descendentes toda a miséria e degradação moral e intelectual vivida por nossas tristes gerações, habitantes de nosso triste trópico que já foi conhecido por ser uma dos mais belos, felizes e promissores lugares do mundo para se viver.

No capítulo 1, “Mentalidades afins”, Gordon contrasta a moralidade das elites com a do povo e contextualiza a formação da famigerada opinião pública, consenso do seleto grupo pervertido que compõe uma enorme parcela de nossa elite econômica, política e, por que não deixar logo bem claro, intelectual.

No capítulo 2, “A longa marcha sobre as instituições”, o autor mostra o aspecto quasi-religioso que as ideologias de massa assumiram, explicando como pessoas, aparentemente dotadas de inteligência, podem se submeter a projetos desastrosos e cruéis impostos por líderes ridículos. O papel de Antônio Gramsci fica bem claro, assim como sua influência na elite da esquerda brasileira, nos dois capítulos seguintes, “O mal-estar dos intelectuais” e “Gramsci no Brasil”.

O capítulo 5, “Dom Quixote e Sancho Pança”, trata da manipulação da linguagem e das percepções alheias pela classe falante e pela mídia. O uso indiscriminado de baixezas erísticas é denunciado, lembrando ao leitor o carnaval de rótulos odiosos e delírios de interpretações que rondam o debate político e cultural no Brasil, se é que podemos denominá-lo debate. Está mais para altercação.

O capítulo 6, “Imaginação moral, imaginação idílica, imaginação diabólica”, encerra a primeira parte do livro ao estilo temático dos capítulos penúltimos de “O Jardim das Aflições”. Amparado por grandes precedentes como Lionel Trilling, Karl Kraus, Hugo von Hofmannsthal, Marcel Proust, Russel Kirk, Oswaldo de Meira Penna, Edmund Burke, Eugen Rosenstock-Huessy, Gilbert K. Chesterton, T. S. Eliot, Northrop Frye, Leopold von Ranke, Roger Scruton, os clássicos da literatura mundial e os Evangelhos, Flávio Gordon tece sua crítica ao espírito solapado pela corrupção, destituído dos altos voos da transcendência, elemento expresso de forma imediata diante do indivíduo ou, no aspecto coletivo, expresso pelo mais precioso e rico legado da Alta Cultura. Neste capítulo, o autor já deixa bem claro que estamos diante de uma hecatombe de proporções civilizacionais, que nos deformou e nos isolou da rica realidade cultural que nos gerou.

Após estabelecer as bases literárias, antropológicas, históricas e filosóficas de sua crítica, Flávio Gordon inicia a segunda parte de seu livro, dedicada a analisar especialmente a situação brasileira, encaixando-a no panorama internacional. Embora temas nacionais tenham sido tocados na primeira parte, o estilo anterior era o de expansão progressiva. Na segunda parte, vemos uma contração que se aproxima cada vez mais do presente, a partir da fatídica metade do século XX.

No capítulo primeiro da segunda parte, “Uma história muito mal contada”, Gordon fornece detalhes de como a intelectualidade da vertente esquerda do espectro ideológico dedicou-se a beber da sedutora taça do poder e a manter sua hegemonia, aleijando e alijando intelectuais discordantes e, inevitavelmente, impossibilitando aquela que é uma das mais potentes máquinas de criar inteligências: a velha dialética aristotélica, baseada na síntese das teses e antíteses. Os intelectuais foram os maiores agentes e as maiores vítimas de sua estratégia.

O capítulo 2, “Comunismo e consciência: o momento Kronstadt”, aborda o fenômeno de devoção cega que solapa tantas mentes teoricamente dotadas de tudo o que seria necessário para caracterizar uma pessoa inteligente. Gordon também trata dos casos em que alguns intelectuais perfuraram o cerco à consciência e conseguiram se desvencilhar da escravidão ideológica, enxergando todo o mal e degeneração ao qual estavam presos.

O capítulo 3, “A doutrina Golbery e a hegemonia cultural da esquerda”, aborda a política de descompressão do General Golbery e a crescente influência que os destruidores culturais da Escola de Frankfurt e da New Left, de forma geral, tiveram na sociedade brasileira, principalmente nos meios universitários e na mídia.

O capítulo 4, “Aplausos com uma só mão”, mostra as discretas – e secretas – ligações de nossos intelectuais com agentes ideológicos estrangeiros. Um assunto pouquíssimo lembrado – ou ocultado? – em nossa academia. Mostra também como a experiência de um seleto grupo de elite com a ditadura militar foi fixado no imaginário cultural de nosso país e, até hoje, foi convertido numa monótona cacofonia instrumentalizada para a guerra política de ocupação e controle de espaços.

O livro encerra com uma demonstração narrativa, concreta e vívida, dos fatos que ilustram o estado de calamidade cultural em que nos encontramos.

Lembrando de grotescas manifestações de nossas universidades, Gordon descreve situações como as do homem que arrastava tijolos com o pênis, a mulher cachorro com focinheira que urina no poste, o jovem eletrocutado confundido com artista performático, o culto satânico sadomasoquista lésbico chamado de arte  e bancado com dinheiro público, o professor universitário que estimula o fuzilamento daqueles que discordam, o enaltecimento sistemático da bandidagem, o totalitarismo violento e “fascistóide” dos que pregam a liberdade e a “tolerância”, a manifestação visceral de certos protestos na forma de “vomitaços” e o uso do orifício anal como ápice da revolução cultural e política mundial.

Flávio Gordon vislumbra, a título de comparação, o que foi descrito pelo Cardeal John Newman como um clássico Scholar: um sujeito dotado de verdadeira cultura intelectual, cujos atributos são a liberdade, a equidade, a calma, a moderação e a sabedoria, ao invés de simples possuidores de saberes específicos. Diante do desolador cenário atual, lamenta a ausência dessa figura hoje quase mítica em nosso país e constata que a universidade brasileira está repleta de “gente furiosa contra os livros que já não sabe ler”, como diria Carpeaux.

Flávio Gordon encerra o livro constatando que “os pais, que outrora lamentavam perder os filhos para as drogas e as más companhias, agora os perdem para a universidade. ” Não é à toa que este último capítulo abre com a inscrição do pórtico do inferno dantesco: “Abandonai toda a esperança, ó vós que entrai”.

Hélio Angotti Neto

22 de setembro de 2017, Colatina – ES.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

MEDICINA E HUMANIDADES - Entrevista para a Revista DOC

MEDICINA E HUMANIDADES – Entrevista para a Revista DOC

 

1 - Em qual das duas áreas você se formou primeiro: Medicina ou Filosofia? E por que a escolha por cada uma delas? Você se considera um médico dedicado à Filosofia ou um filósofo que pratica Medicina?

 Formei-me em Medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo. Depois fui residente em Oftalmologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde atuei também como preceptor e onde fiz meu Doutorado em Ciências – Oftalmologia.

Não tenho nenhum título formal em Filosofia, tampouco em Bioética. Sou filósofo no sentido em que busco a sabedoria na qualidade de indivíduo, cristão, pai de família e médico, buscando integrar conhecimento e consciência, conforme definiu o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Não tenho título de bacharel em filosofia, embora atue de forma acadêmica, escrevendo, editando e pesquisando, também nessa área.

O meu estudo no campo da filosofia e das humanidades em geral ocorreu e ainda ocorre de forma independente há cerca de quinze anos. Digo independente no sentido em que não busquei formalizar um título.

Sobre ser médico, cristão ou filósofo, nos termos que entendo, não vejo uma escolha ou predominância, vejo uma complementaridade. Minha fé constrói a forma pela qual entendo a realidade, a filosofia determina junto com minha fé a postura que adoto diante do real e a medicina é uma forma de aplicar o que sei e acredito em prol dessa mesma realidade. Em minha profissão encontrei uma compatibilidade de valores entre as perspectivas de minha vida.

A medicina eu escolhi como profissão. A filosofia eu escolhi por obrigação com a verdade e por identificação, motivado pela minha fé. É uma mistura antiga, essa a da filosofia com a medicina, legada a nós desde a Antiguidade Clássica.

2 - Quando você decidiu explorar a Filosofia na área médica? E como surgiu essa ideia?

Decidi explorar a filosofia na área médica quando ingressei no programa de residência médica. Diversas mudanças e novas responsabilidades em minha vida convidaram-me a adotar uma postura mais reflexiva. Quanto mais eu estudava sobre humanidades médicas, mais eu enxergava minha carência em conhecimentos humanísticos. O interesse pelos temas mais variados e a aplicabilidade deles na arte médica, ao lado da ciência, levaram-me a prosseguir no estudo e na pesquisa.

No começo estudei filosofia de forma geral e, aos poucos, as conexões surgiram, levando-me ao estudo da Filosofia da Medicina e da Bioética.

3 - Como se dá a relação entre Medicina e Filosofia? O que há em comum e de divergente nessas duas áreas?


A medicina, nas palavras de Edmund Pellegrino, é a mais científica das humanidades e a mais humana das ciências. É uma arte que utiliza a ciência para lidar com a realidade do paciente em busca do bem.

Um médico exercerá sua arte nas três esferas do conhecimento conforme o entendimento aristotélico: exercendo uma habilidade, dotado de conhecimento, em um contexto ético específico. Essa integração entre ação, conhecimento e moralidade é completamente compatível com a filosofia em sua formulação socrática.

A filosofia e, particularmente, as humanidades médicas, ajudam a compreender melhor o ser humano em toda a sua complexidade e a interferir de forma mais positiva na vida alheia.

Tanto a filosofia quanto a medicina ajudam a compreender o mundo em que vivemos e, em especial, o homem. A grande diferença entre uma e outra é o alcance. A boa filosofia é a base para todos os demais conhecimentos.

4 - Em seu blog, você fala sobre Humanidades Médicas. Como explicar esse conceito? E por que é possível dizer que a Filosofia é uma delas?

 O conceito de Humanidades Médicas só pode ser compreendido hoje em conjunto com a compreensão da divisão artificial entre arte ou humanidades e ciência. Em oposição à ciência, que seria o conhecimento experimental, matematizado e pretensamente mais objetivo, têm-se as humanidades, que compõem todo aquele conhecimento empírico e subjetivo que lida com o inédito e com a imprevisibilidade inerente a cada ser humano.

Hoje fala-se muito a respeito da bioética em saúde. Mas para falar de bioética com propriedade, é necessário compreender a Alta Cultura de uma civilização; seus fundamentos humanísticos, incluindo literatura, história, arte e, na base de tudo, a filosofia e a religião, que nos oferecem as ferramentas necessárias para uma reflexão integradora de todos os campos do conhecimento.

5 - Ao longo dos anos, as transformações sociais vêm provocando mudanças na Medicina, principalmente na relação médico-paciente, e têm sido alvo de discussões de pesquisadores da Bioética. Para você, quais mudanças, de fato, ocorreram e como as explica?

 Mudanças ocorreram, ocorrem a cada dia, e ocorrerão sempre.

Na antiguidade o médico se confundia com o feiticeiro e com o sacerdote. Curava e matava. Tudo começa a mudar com a medicina hipocrática, quando o médico se separa da esfera religiosa propriamente dita e almeja uma arte mais técnica e científica, conhecedora das causas e devotada ao reconhecimento da preciosidade da vida humana.


Com o advento do cristianismo, essa percepção do valor da vida humana torna-se hegemônica e se difunde pela civilização ocidental.

Com a medicina moderna, veio a concepção mecanicista do ser humano. Já na época contemporânea, onde temos os grandes milagres da técnica médica, surgiram problemas relacionados a falhas éticas em pesquisa e riscos de mutações civilizacionais irresponsáveis. Uma outra modificação bem presente, ao ponto de ser ignorada por muitos, é o conflito inerente de interesses quando o médico se encontra dividido entre diversas demandas, vindas do Estado e de instituições privadas que se colocam como intermediárias da relação médico-paciente, quebrando o vínculo tradicional de confiança que existe entre médico e paciente há milhares de anos.

Eu entendo que mudanças são constantes, porque a realidade não é estática. Porém, há um fundo de valores que permanecem, e que devem sempre serem atualizados e reconhecidos nos mais diversos contextos, para que a medicina continue promovendo o bem ao qual se propõe. Se o médico não atualizar de forma constante esses valores ao longo dos contextos que se alteram, o elo de confiança com o paciente será quebrado. Digo atualizar no sentido de tornar ato, tornar algo presente. Os valores estão aí, sempre estiveram, é necessário manifestá-los na relação médico-paciente.

6 - Como você caracterizaria a Medicina Hipocrática? Acredita que seus legados ainda estejam presentes atualmente?

A medicina hipocrática é aquela arte comprometida com a busca da causa dos problemas de saúde do ser humano por meio de uma explicação predominantemente natural e com a cura ou o alívio em relação à doença e com o consolo, o conforto e o respeito ao paciente.

Embora existam algumas técnicas ancestrais de investigação clínica e até mesmo alguns procedimentos terapêuticos que guardam grande semelhança com práticas utilizadas ainda hoje, as explicações científicas mudaram completamente. Contudo, há um elemento atemporal na antiquíssima medicina hipocrática que permanece tão valioso, atual e distintivo a ponto de ter gerado respeito entre os cristãos e muçulmanos que vieram séculos depois: o seu componente ético.

Vários elementos da ética hipocrática ainda se encontram presentes na medicina: a defesa da vida humana como pilar da benevolência e da não malevolência; o sigilo entre o médico e seu paciente; o reconhecimento da fragilidade de quem se encontra doente e a necessidade de proteger seu pudor e sua vulnerabilidade e muitos outros elementos. Procuro deixar claro os pontos de contato entre as diferentes culturas e épocas nas obras “A Tradição da Medicina” (já lançada, na qual abordo o Juramento de Hipócrates e as virtude médicas) e “A Arte Médica” (a ser lançada pela Editora Monergismo, na qual abordo a tradição hipocrática de forma geral, em seu conteúdo ético).

Os elementos hipocráticos ainda estão presentes, embora muitos menosprezem ou difamem a antiga ética. Do passado veio também uma infeliz e dolorosa lição sobre o que pode acontecer quando nos afastamos de tais ideais nobres, como quando aconteceu com os horrendos exemplos da medicina comunista e da medicina nazista, se é que podemos chamá-las pelo nome de medicina.

7 - Como o paternalismo médico pode ser explicado pela Filosofia e qual sua opinião sobre o tema?

Há várias explicações e significados possíveis para o termo paternalismo, o que torna arriscado qualquer discussão sobre o tema. De regra geral, pode-se falar acerca de um paternalismo forte e autoritário, ligado à figura daquele médico que não considera a opinião do paciente e mal lhe escuta direito. Por outro lado, há um paternalismo fraco, representado pela figura do médico benevolente que age em prol do paciente extremamente vulnerável e destituído de autonomia real. No primeiro caso, o paternalismo torna-se um ato imoral, destituído de empatia e respeito; no segundo, pode ser até mesmo uma conduta obrigatória e benevolente com o paciente e sua família. Inclusive, muitos pacientes exigem do médico uma postura paternalista fraca.

Há muitas nuances e diferentes formas de enxergar esta questão. Contudo, é incontornável o fato de que a doença causa, na maioria das pessoas, uma extrema fragilidade psíquica e um aumento da dependência em relação ao próximo. Na figura do médico muitos enxergarão a imagem paternal. Essa condição inerente à condição humana frágil e limitada somente reforça a enorme responsabilidade do médico e a grande necessidade de formar adequadamente o seu caráter ao trabalhar suas virtudes. Um dos grandes objetivos da relação terapêutica em prol do bem do paciente, inclusive, é restituir autonomia ao paciente, um elemento importante de sua integridade, como lembra Eric Cassel em sua obra de grande importância para as Humanidades Médicas (The Nature of Suffering – A Natureza do Sofrimento).

8 - Você é coordenador de Medicina da UNESC. A grade do curso tem algum conceito filosófico embutido? E qual é a importância de formar o aluno de Medicina com base nesses conceitos?

Há conceitos ou aspectos filosóficos em tudo o que fazemos, mesmo que não sejam percebidos. A educação médica não escapa desta observação. O próprio método de aprendizagem ativa se ampara em muitos pressupostos filosóficos e pedagógicos.

Quanto ao conteúdo na grade curricular, há algumas inserções que gradualmente foram estabelecidas, conforme a compatibilidade e a necessidade do Projeto Pedagógico do Curso. De forma geral, há um estímulo ao estudo de questões psicossociais, embora seja menosprezado por escolas médicas mundo afora, mesmo que estejam formalmente integrados às discussões. Há também módulos específicos que abordam elementos da formação profissional do médico, da filosofia da medicina, da bioética, dos direitos humanos e da cultura que são ministrados por mim com ajuda de colegas médicos e professores do direito.

Além da inserção curricular, é necessário criar um ambiente de pesquisa e promoção das humanidades e da ética médica. Um caminho encontrado por nós foi criar o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, com atividades de extensão, ensino e pesquisa em Humanidades Médicas, levando trabalhos a congressos e publicando livros e artigos. Por fim, exercendo um papel importantíssimo, surgiu a Liga de Humanidades Médicas, de iniciativa discente. Diferentes atores e diferentes processos ajudam a despertar a curiosidade e a enxergar a importância desses estudos.


Sobre a importância em se formar o médico em termos humanísticos, devo lembrar da famosa citação de José de Letamendi y Manjarrés: O médico que só sabe medicina, nem medicina sabe. A medicina é uma arte complexa, e a ciência claramente é insuficiente para preparar o futuro profissional. As humanidades médicas buscarão o que há de melhor na cultura por mais de dois mil anos acumulados para formar um indivíduo maduro e preparado para a verdadeira ação em sociedade; justamente o que os antigos gregos denominavam spoudaios e que hoje muitos chamariam de cidadãos ou elementos maduros da sociedade.

Fala-se muito em cidadania. De regra é apenas uma expressão vazia e sem conteúdo concreto para a maioria das pessoas, essa tal de cidadania; tornou-se um chavão. Um indivíduo preparado para compreender os profundos recessos da experiência humana, própria e alheia, dotado das melhores ferramentas de comunicação e empatia legadas por mais de dois mil anos de história e cultura, e preparado com os instrumentos da técnica filosófica que providenciarão firmeza de caráter e solidez à consciência, estará apto a assumir de forma responsável a responsabilidade de ser médico e cidadão. Isso é cidadania de verdade.

9 - Quais são os principais ensinamentos que a Filosofia pode fornecer ao médico? Você indicaria o estudo da área para seus colegas de profissão?

 A filosofia fornece autoconhecimento e humildade. O seu aspecto geral e o amplo leque de reflexões também prepararão o médico para a ação interdisciplinar e potencializarão a criatividade e a inteligência, possibilitando conexões entre conhecimentos e experiências que, de outra forma, permaneceriam dissociadas. A investigação séria, metódica e profunda sobre a realidade auxiliará na compreensão da vida alheia e de formas de promover a saúde e combater a doença e o sofrimento. O treino lógico e dialético promoverá um raciocínio clínico e ético eficaz e complexo, capaz de lidar com as grandes complexidades vividas dia após dia por médicos em seus consultórios, hospitais e postos de saúde.

Sem dúvida nenhuma, o estudo da filosofia de boa qualidade está indicado para qualquer pessoa que queira viver uma vida mais plena e consciente. Não digo a filosofia do bacharelado ou da licenciatura, que reúne um conteúdo específico de conhecimentos, mas sim, a filosofia como forma de viver (que pode estar associada à forma anterior), como prática de vida, conforme o projeto original de Sócrates, Platão e Aristóteles, assim como enxergam alguns grandes filósofos mais recentes como Olavo de Carvalho, Mário Ferreira dos Santos, Pierre Hadot, Louis Lavelle e Eric Voegelin, somente para citar alguns.

10 - No dia a dia, como você concilia o exercício da Filosofia e da Medicina? Fale um pouco de sua rotina, por favor.

A busca constante pela sabedoria a todo momento implica um exame constante da própria vida. Tal exame permite enxergar as mais diferentes situações de diferentes perspectivas, reconhecendo melhor a complexidade da realidade em que vivemos. Outra forma de conciliação entre medicina e filosofia é a crítica do próprio conhecimento, e a constante busca pela coerência entre o conhecimento, a crença e a ação.

Em todos os meus estudos e práticas, busco sempre estabelecer pontes, conexões, entre coisas aparentemente não relacionadas. Isso fornece a criatividade e a agilidade de pensamento para buscar novidades e estar sempre alerta às mudanças necessárias.

A filosofia aplicada diretamente à medicina também ajuda na empatia compassiva, na compreensão da realidade alheia e dos pontos de conexão desta conosco.

Quanto à rotina de práticas e estudos, recebo muitas perguntas sobre como conciliar e buscar tantos conhecimentos tão amplos e, aparentemente, diferentes.

Ser cristão atuante, marido, pai de dois filhos pequenos, médico, cirurgião, coordenador de curso, professor, pesquisador, editor e autor, entre outras coisas e ler sempre entre cinquenta e oitenta livros por ano nos últimos dez anos é um desafio e realmente gera um pouco de curiosidade.

A fórmula que funcionou para mim inclui diversos pontos.

Faço o que gosto e faço aquilo em que acredito. Nisto encontro motivação imensa para melhorar sempre e nuca retroceder.

Há técnicas para estudar. Procuro utilizá-las com as devidas adaptações. Consultas às obras de Barbara Oakley e Pierluigi Piazzi e aos cursos sobre métodos de estudo de Olavo de Carvalho fornecerão importantes dicas.


Sempre estudo algo que desperta meu interesse ou que é extremamente necessário para resolver um problema importante. Mesmo que sejam dez escassos minutos de estudo, todo dia tenho que ler e absorver algo.

Mantenho meu interesse por diversos assuntos ao mesmo tempo. Gosto de estudar oftalmologia, medicina geral, epidemiologia, medicina baseada em evidências, teologia, bioética, filosofia de forma geral, política, história e literatura. Às vezes leio diversos livros aos poucos, todos ao mesmo tempo; às vezes concentro minha atenção em uma leitura mais urgente. É incrível como as conexões vão aparecendo aos poucos e como há, de fato, um crescimento exponencial das relações culturais que passam a se mostrar nas mais diferentes áreas do saber.

Acordo cedo, leio um pouco, vou trabalhar, almoço quase sempre em casa – um dos luxos de se morar no interior -, trabalho novamente, retorno ao lar, estudo mais um pouco e produzo um pouco. No fim de semana, a rotina obviamente muda, com mais presença no lar junto à família e, no domingo, leituras mais centradas em filosofia e teologia e a convivência na Igreja, elemento importantíssimo.

Essa rotina funciona, entremeada com imprevistos e algumas viagens, graças à esposa maravilhosa que tenho. Seria impossível fazer o que faço sem o suporte amoroso e paciente da Joana. A família é protagonista para uma vida de estudos saudável.

Além disso, algumas dicas cotidianas: desligue a televisão, desista de novelas e outras banalidades, leia diretamente nas fontes de confiança as notícias de que você precisa para se manter atualizado (sem Fake News, não há tempo a perder). Aproveite o seu tempo compreendendo o quão é precioso cada momento.

William Osler, famoso médico anglófono, já preconizava leituras indispensáveis que deveriam habitar a cabeceira de um bom médico ou estudante de medicina. A boa leitura e a presença real junto ao paciente oferecem oportunidades valiosíssimas para amadurecer e crescer intelectualmente e em termos pessoais.


11 - Qual é a área da Filosofia mais chama sua atenção? E da Medicina?

 Pode responder todas as áreas? Se tivesse que decidir por uma, não conseguiria responder. Mas, da filosofia, estudo principalmente a metafísica, a filosofia política, a filosofia moral e a epistemologia. É difícil definir, pois a filosofia é essencialmente geral e interdisciplinar.

Já na medicina, gosto de oftalmologia - principalmente de órbita e neuro-oftalmologia -, ética médica, história da medicina, semiologia, medicina baseada em evidências e comunicação médica.

No geral, tudo o que diz respeito a Deus e ao ser humano interessa muito a mim.

12 - Há alguma influência da Filosofia na sua relação com os pacientes? É possível dizer que existe um atendimento diferenciado?

 Sim, há uma intensa influência de minha filosofia e de minha fé na relação com os pacientes. Muito dependerá de como o médico enxerga o mundo.

Um atendimento que enxergo como diferenciado seria: a)      Radicalmente realista e intuicionista, pois acredita poder tocar a realidade do paciente, sem negar o grau de subjetividade e de transcendência que às vezes nos escapa; b)      Moral e empático, pois age em meio à relação estabelecida entre pessoas com moralidade que estabelecem e demonstram valores em suas atitudes; c)      Comunicativo e compassivo, pois liga duas ou mais perspectivas em prol de um bem comum ao perceber o sofrimento; d)      Complexo e inédito, dentro de um contexto de infinitude que permeia toda a realidade.

Tais elementos derivam, de fato, de uma forma filosófica bem específica de enxergar o mundo. Contudo, devo lembrar que há certas formas de pensamento e perspectivas que também recebem o nome de filosofia que poderão acabar levando aqueles que as subscrevem à loucura, ao delírio, ao solipsismo e à degeneração maldosa.

13 - Você organizou em maio deste ano a primeira edição do Seminário Capixaba de Filosofia (SECAFI). Com que objetivo o evento foi criado? Quais foram os resultados?

 O Seminário Capixaba de Filosofia foi um evento multidisciplinar que envolveu médicos, advogados, historiadores, cientistas políticos, cientistas sociais, escritores e filósofos, entre outros, para analisar os frutos e principais características da obra filosófica do Olavo de Carvalho, sem o rancor ideológico demonstrado por tantos elementos de nossa sociedade que ousam falar do que não leram, ou, se leram, do que não entenderam.


O ambiente acadêmico das humanidades no Brasil transformou-se num lugar de hostilidade e ódio à sincera busca pela verdade, no qual pessoas são rotuladas e desprezadas por suas crenças políticas e o valor de suas obras é julgado pelo alinhamento de seu autor. Queríamos um ambiente no qual tudo o que interessava era o debate intelectual honesto, destituído dos preconceitos que embrutecem e emburrecem o ensino superior em tantos locais do Brasil.

O objetivo foi alcançado, eu acredito.

Abordamos aspectos políticos, filosóficos, literários e históricos da obra de Olavo. Tais elementos - gostem ou não aqueles que governam as cátedras dos estudos sociais brasileiros, impregnados pelo gramscismo - despertaram um diálogo realmente diversificado na sociedade brasileira, assim como levaram centenas (ou milhares?) de pessoas às prateleiras de livros filosóficos e clássicos da literatura. Foi graças ao persistente trabalho de um pensador isolado que hoje o mercado editorial brasileiro está realmente diversificado em termos políticos e filosóficos.

Em sua primeira edição o evento atraiu pessoas de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e de diversos cantos do Espírito Santo. Foi um evento puramente dedicado ao estudo filosófico, feito sem filiação partidária alguma e com nenhum, repito, nenhum patrocínio que não fosse o dinheiro pessoal dos organizadores, muito boa vontade e o dinheiro dos inscritos. Apesar disso, o salão ficou lotado.

Para um evento filosófico que não ofereceu créditos em cursos universitários ou certificação nenhuma, totalmente dependente do interesse alheio e independente do dinheiro de partidos políticos ou dos cofres públicos, foi um inesperado sucesso. As palestras foram disponibilizadas e, em breve, há a expectativa de lançarmos um livro com artigos especialmente selecionados.

14 - Quando a sua relação com a Filosofia e a Medicina ultrapassou as fronteiras do consultório e da universidade, chegando aos livros? Como surgiu a inspiração para escrever Disbioética e A tradição da Medicina? Há previsão de lançar mais livros?

Após dez anos de estudo, absorvendo cultura e meditando sobre a experiência cotidiana, criei o Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina, no UNESC. No segundo ano do seminário discutia com os alunos alguns artigos na área de bioética quando nos deparamos com um inusitado trabalho defendendo o conceito de abortamento pós-nascimento. Uma resposta a este artigo transformou-se no livro “A Morte da Medicina”. A busca pela cultura que sustenta a medicina ainda hoje, fornecendo elevados ideais éticos e profissionais, acabou por gerar “A Tradição da Medicina”, no qual abordo o Juramento de Hipócrates e a Ética Baseada em Virtudes. Por fim, os desvios e perigos representados por determinados movimentos no campo da bioética levaram-me a escrever o “Disbioética”, que ainda terá mais três volumes, no mínimo.


O volume dois da série Disbioética tratará sobre política e medicina. O terceiro será intitulado “O Extermínio do Amanhã”, e tratará do aborto. Por fim, o quarto volume abordará o tema da liberdade de consciência no campo da saúde.

Ainda há previsão também de lançar um volume sobre os aspectos éticos gerais das obras hipocráticas e suas interações com outras tradições culturais, como a da cultura cristã no ocidente, e reflexões sobre o Código de Ética Médica.

Ainda pretendo escrever sobre muitas outras questões, ressaltando também diversos médicos e filósofos do passado e do presente.

15 - De olho no futuro, qual a sua perspectiva para este universo onde Filosofia e Medicina caminham de mãos dadas?

Vejo um longo e árduo caminho para que se crie, ou se resgate, a Alta Cultura dentro da medicina. Embora estejamos em meio a relativas trevas nos dias de hoje, não temos a opção de desanimar. Nossos pacientes dependem da qualidade e da dignidade profissional da medicina em muitas situações de fragilidade e sofrimento.

E é justamente nas grandes crises que surge a filosofia. O momento atual de crise, se bem trabalhado, pode muito bem apontar o surgimento de uma nova consciência entre os médicos, pode apontar a necessidade de escutar a antiga frase de José de Letamendi y Manjarrés, e fazer com que compreendamos com clareza a antiga verdade de que o médico precisa saber muito mais do que somente a medicina para ser um bom profissional.

Com uma filosofia de qualidade, o médico refletirá melhor sobre os rumos tomados e decidirá com maior consciência. Com filosofia de qualidade o médico poderá voltar a participar de forma mais efetiva na sociedade, tanto culturalmente quanto politicamente.

Se não resgatarmos nossa identidade cultural e a aprimorarmos com base em uma sólida formação de caráter, conhecimentos e técnicas, a nobre profissão médica em seus mais elevados padrões estará com os dias contados.

Hélio Angotti Neto
21 de setembro de 2017
Colatina - ES


sábado, 16 de setembro de 2017

COMO ESTUDAR TANTO DE TUDO?

COMO ESTUDAR TANTO DE TUDO?


Recebo muito esta pergunta. Ser cristão atuante, marido, pai de dois filhos pequenos, médico, cirurgião, coordenador de curso, professor, pesquisador, editor e autor, entre outras coisas e ler sempre entre cinquenta e oitenta livros por ano nos últimos dez anos é um desafio e gera um pouco de curiosidade.


A fórmula que funcionou para mim inclui diversos pontos.

Faço o que gosto e faço aquilo em que acredito. Nisto encontro motivação imensa para melhorar sempre e nuca retroceder.

Há técnicas para estudar. Procuro utilizá-las com as devidas adaptações. 

Sempre estudo algo e sempre estudo aquilo que desperta meu interesse ou que é extremamente necessário para resolver um problema importante. Mesmo que sejam dez escassos minutos de estudo, todo dia tenho que ler e absorver algo.

Mantenho meu interesse por diversos assuntos ao mesmo tempo. Gosto de estudar oftalmologia, medicina geral, epidemiologia, medicina baseada em evidências, teologia, bioética, filosofia de forma geral, política, história e literatura. Às vezes leio diversos livros aos poucos, todos ao mesmo tempo; às vezes concentro minha atenção em uma leitura mais urgente. É incrível como as conexões vão aparecendo aos poucos e como há, de fato, um crescimento exponencial das relações culturais que passam a se mostrar nas mais diferentes áreas do saber.

Acordo cedo, leio um pouco, vou trabalhar, almoço quase sempre em casa – um dos luxos de se morar no interior -, trabalho novamente, retorno ao lar, estudo mais um pouco e produzo um pouco. No fim de semana, a rotina obviamente muda, com mais presença no lar junto à família e, no domingo, leituras mais centradas em filosofia e teologia e a convivência na Igreja, elemento importantíssimo.

Essa rotina funciona, entremeada com imprevistos e algumas viagens, graças à esposa maravilhosa que tenho. Seria impossível fazer o que faço sem o suporte amoroso e paciente da Joana. A família é protagonista para uma vida de estudos saudável.

Além disso, algumas dicas cotidianas: desligue a televisão, desista de novelas e outras banalidades, leia diretamente nas fontes de confiança as notícias de que você precisa para se manter atualizado (sem Fake News, não há tempo a perder). Aproveite o seu tempo compreendendo o quão é precioso cada momento.


William Osler, famoso médico anglófono, já preconizava leituras indispensáveis que deveriam habitar a cabeceira de um bom médico ou estudante de medicina. A boa leitura e a presença real junto ao paciente oferecem oportunidades valiosíssimas para amadurecer e crescer intelectualmente e em termos pessoais.

Hélio Angotti Neto
16 de setembro de 2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

RESENHA: A HISTÓRIA DA IDÉIA DE RAÇA

RESENHA: A HISTÓRIA DA IDÉIA DE RAÇA

Livro de Eric Voegelin



Em seu livro The History of the Race Idea. From Ray to Carus[1] (A História da Idéia de Raça. De Ray a Carus), Voegelin aborda a ideia de raça, que é, sem dúvida nenhuma, um elemento crucial na política de hoje, como demonstrará qualquer conversa que demore mais do que cinco minutos sobre ações do governo envolvendo cotas ou distribuição de renda.

Expressões como racismo, cotas raciais, nazismo, marginalização dos excluídos, discriminação e muitos outros são utilizados sem dó nem piedade, infestando o cotidiano das discussões acadêmicas ou populares. Como ampliar nossa compreensão a respeito de tais expressões e fugir da vulgaridade demencial que se observa?

Voegelin oferece uma contribuição valiosíssima para quem deseja pensar o assunto de forma séria ao rastrear a origem e a evolução da idéia de raça, seguindo o estilo de suas grandes e vastas obras: História das Idéias Políticas e Ordem e História.

Na introdução de seu livro, Eric Voegelin aborda o fenômeno chamado de raça justamente pela constatação de que há uma imagem primordial do homem, sobre a qual se fundamentam juízos, percepções de potenciais e ações. Há diversas formas de se enxergar o ser humano, e tais formas ou imagens mudam entre culturas e com o passar do tempo.

A idéia de raça é buscada no tempo até a concepção antiga dos cristãos primitivos no que diz respeito à raça eleita, uma nova imagem moldada em conformidade com o Cristo-Deus em contraste com a imagem do pagão, destituído do modelo divino e inferiorizado. Tal visão a respeito do homem coloca-o centrado em uma alma imortal e indivisível diante de seu destino igualmente imortal, caminhando para uma nova existência em glória com um corpo modificado na nova terra sob novos céus. Nessa antiga visão, não caberia falar a respeito de uma raça neste mundo, no qual o Evangelho deveria se espalhar a todos os povos, tornando-os irmãos destinados a alcançar a perfeição e a perfeita comunhão no além.

Com a idade moderna e as filosofias seculares, a ideia de perfeição humana é secularizada e transportada para o processo histórico imanente, a tão famosa imanentização do Eskathon. Com Immanuel Kant, fortalece-se a imagem do humano autônomo bipartido entre sua natureza racional e, portanto, boa, e sua natureza sensorial, mentirosa e, portanto, má. Ideias que guardam claras analogias com o antigo gnosticismo. Segundo essa antiga heresia, tudo o que é material é maligno, e foi criado por um tipo de deus inferior, enquanto a pureza destinara-se ao mundo espiritual.

A vida orgânica, para muitos estudiosos, torna-se uma imagem de caráter autônomo entre o reino das coisas mecânicas e o reino da racionalidade. Já não é um veículo de uma alma transcendental.

A imagem da alma indestrutível e eterna, que supera todo o mundo em duração, é substituída pela imagem do homem racional que habita sua máquina irracional. Daí o destino desse homem invariavelmente prender-se à realidade imanente como doadora de propósito. Não havia como harmonizar a imagem da alma rumo à Glória de Deus com a imagem do ser racional que habita um corpo restrito à imanência.

Para os cristãos, a pessoa estava em uma peregrinação, era a imagem de alguém em sua evolução para o destino final. A nova imagem exibiu um organismo humano autônomo, com regras próprias, que progrediu para a imagem mais próxima de nosso tempo: um organismo que respeita uma ordem interna de sua espécie inerente à natureza, não criada, mas evoluída de sucessivas mudanças intracósmicas, isto é, imanentes. É claro que tal perspectiva mais contemporânea é completamente hostil à vida contemplativa do espírito.

Tais imagens primordiais acerca do ser humano, muitas vezes encarnadas por arquétipos que determinam a história e a vida de incontáveis pessoas, tais como o Cristo, Buda ou César, devem ser compreendidas em seu contexto concreto. E são essas imagens extremamente contraídas, repletas de significados que podem ser desdobrados em infinitas vidas, que geram o solo para uma visão antropológica.

A visão antropológica materialista que, por definição, tentará explicar o ser humano em sua imagem fragmentada, pode ser acusada de autocontradição ao tentar reduzir o fenômeno da vida humana ao seu elemento material bruto, visto que a própria explicação do que seria a vida humana, se é que alguém pode oferecê-la, já não seria material.

Eric Voegelin se baseou nessa apreensão da forma de se enxergar a imagem do homem para discorrer sobre a história dessa coisa que chamamos de raça. Utilizando relatos históricos e acadêmicos como lentes para enxergar o mundo, Voegelin realiza um amplo esforço empático de compreensão das ideias que geraram nosso tempo.

Para os modernos - propagadores do racionalismo de Descartes e dos anseios do Iluminismo -, o ser humano era uma junção do espírito ou alma - seu elemento racional - com a matéria ou corpo - seu elemento “natural” ou animal. Embora aqueles pensadores classificassem os seres vivos da natureza, o homem escapava à inclusão plena no mundo natural por possuir um elemento que o aproximava do divino, um elemento racional que tornava a todos os homens irmãos, apesar das diferenças em seus aspectos materiais, tratados não pelo nome de raça, mas por classificações quanto a locais, nações e culturas. Assim foi pensado pelos primeiros que se debruçaram sobre classificações dos elementos da natureza na época moderna, como Lineu, Buffon, Herder e Ray, este último já acreditando no possível surgimento gradual das espécies, não como um projeto evolutivo – conforme o pensamento mais tardio -, mas como um projeto de revelação gradual de Deus por desvelamento de múltiplas camadas potenciais, já presentes desde o primórdio.

Essa visão alterou-se com contribuições posteriores, como aquelas feitas por Wolff, Leibniz, Oken, Blumenbach e Kant. O corpo integrou-se à alma e, progressivamente, o mesmo corpo passou a abarcar a alma e a determiná-la. Tal evolução chegou à etapa na qual uma idéia radicalmente imanente de parentesco entre as formas que evoluíam progressivamente surgiu, depondo contra a idéia criacionista de fixidez das formas.

Por fim, Voegelin acusa a total imanentização da pessoa como elemento que viabilizou a concepção de raça observada no século XX. O corpo passa a limitar e determinar a alma. Em pensadores como Carus, o corpo já não era a parte menos nobre do homem, responsabilizado pela fraqueza, pela limitação e pela sensualidade imposta à alma; o corpo era a fundação sem a qual não haveria a possibilidade de permitir a plena evolução do espírito.

De almas que qualificavam e diferenciavam corpos, chega-se à situação na qual corpos determinam o potencial evolutivo de almas. Dessa percepção, a conclusão óbvia foi a de que havia raças mais evoluídas e que permitiriam a manifestação de seres mais elevados do que outras raças denominadas inferiores.

Essas colaborações feitas por Carus levaram nossa civilização diretamente à idéia da raça como moldadora da realidade política, com todas as suas terríveis consequências para a humanidade e toda a depreciação da condição humana.

A raça, derivada de postulados ideológicos, tornou-se uma ferramenta para interpretar a vida do indivíduo e a vida da sociedade, assim como tornou-se um instrumento de planejamento de ações de grande repercussão na sociedade, projetando um futuro derivado dos potenciais raciais hipoteticamente descobertos no presente.

Copio as palavras do próprio Eric Voegelin, de quem parece a mim impossível discordar sem perder a razão e o coração:

“Olhemos a teoria contemporânea de raça – veremos uma imagem de destruição (...). É um pesadelo imaginar que deveríamos reconhecer as pessoas a quem deveríamos seguir e que deveríamos deixar que se aproximassem de nós não pela sua aparência, pelos seus gestos ou pelas suas palavras, mas pelo seu índice craniano.”

“O homem como substância histórica e como complexo corpo-mente não pode ser explicado por nenhum outro elemento que seja menor do que o próprio homem.”

Hoje observo a criação de verdadeiros tribunais raciais, responsabilizados com a torpe missão de averiguar a pureza da alegação alheia de pertencer a determinada raça para que haja ingresso em cargos públicos ou em vagas universitárias em detrimento de pessoas que nasceram com a cor de pele errada. Eric Voegelin rastreou a idéia de raça e percebeu as bases frágeis que a sustenta, criticando o uso desse conceito tão elástico ao longo da história para hoje fundamentar medidas governamentais. No Brasil hodierno, imagino que Voegelin sentiria um terrível calafrio, uma sensação de iminente perigo diante do ressurgimento de uma antiga mentalidade racista, só que agora vestida em novos matizes, em novos contextos.

A idéia de que tenhamos mérito ou demérito pela cor de nossas peles ou por feitos de antigas pessoas das quais descendemos por causa da raça permanece atual, e a história das idéias sobre a raça ainda progride com novos desenvolvimentos e antigas ameaças.

VOEGELIN, Eric; HEIN, Ruth (Translator); VONDUNG, Klaus (Editor). The History of the Race Idea. From Ray to Carus. The Collected Works of Eric Voegelin Volume 3. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1998, 189p.





[1] The History of the Race Idea. From Ray to Carus The Collected Works of Eric Voegelin Volume 3. HEIN, Ruth (Tradutora); VONDUNG, Klaus (Editor). Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1998.