segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

BERNARD LONERGAN: SÍMBOLOS E SIGNIFICAÇÃO

Para compreender o que significa o Juramento de Hipócrates enquanto Símbolo.

Bernard Lonergan: Símbolos e Significados.


"Os símbolos não obedecem às leis da lógica, mas da imagem e do sentimento. No lugar da classe lógica, o símbolo utiliza uma figura representativa. No lugar da univocidade, coloca uma abundância de significados múltiplos. Ele não prova, mas sobrepuja com uma variedade de imagens que convergem em significado; não se dobra à lei do terceiro excluído, mas admite a coincidentia oppositorum - do amor e do ódio, da coragem e do medo, etc.; não nega, mas supera aquilo que rejeita, reunindo tudo a que ele se opõe; não se move em um único caminho ou plano, mas condensa em um aunidade excêntrica todos os seus interesses atuais."

LONERGAN, Bernard. Método em Teologia. São Paulo: É Realizações, 2012.

OLAVO DE CARVALHO E O RESGATE DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA

I SEMINÁRIO CAPIXABA DE FILOSOFIA
A FILOSOFIA DE OLAVO DE CARVALHO E O RESGATE DA INTELIGÊNCIA BRASILEIRA
20 de maio de 2017



13:30 - Recepção

CONFERÊNCIA DE ABERTURA
14:00 – OLAVO DE CARVALHO NA CULTURA NACIONAL
Ricardo da Costa (Professor Universitário e Medievalista Brasileiro)

15:00 – O JARDIM DAS AFLIÇÕES
Tema: A Responsabilidade Intelectual.
Hélio Angotti Neto (Professor Universitário e Médico)
Debatedores: Leonardo Serafini Penitente

16:20 – ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA
Tema: Artes Liberais (Educação Clássica) e a formação da inteligência.
Francisco Escorsim (Professor e Advogado)
Debatedores: Ricardo da Costa e Jelcimar Junior

18:10 – A FILOSOFIA E SEU INVERSO
Tema: Técnica Filosófica.
Leandro Mello Ferreira (Procurador do Estado)
Debatedores: Francisco Escorsim

19:30 – OS EUA E A NOVA ORDEM MUNDIAL
Tema: Filosofia Política e Atualidades
Felipe G. Martins (Professor, Analista e Cientista Político)
Debatedores: Bruno Garschagen, Helvécio de Jesus Junior, Silvio Grimaldo



Auditório do Edifício América Centro Empresarial (em frente à Universidade Federal do ES)
Capacidade – 140 pessoas
Inscrições na página do evento:
https://www.facebook.com/events/1737924403165935/ 

COMISSÃO ORGANIZADORA
Leandro Mello Ferreira
Gustavo Carneiro de Mendonça
Lysandro Sandoval
Michelle Caloni
Hélio Angotti Neto

sábado, 25 de fevereiro de 2017

O que é Disbioética? - What is Dysbioethics?

DISBIOÉTICA - DYSBIOETHICS


A Bioética surgiu como campo de estudo na década de sessenta do século vinte em meio aos conturbados anos de questionamento frente à autoridade e às profundas mutações sociais que lá foram iniciadas.

O século passado nos legou uma sucessão de horrores advindos da guerra e do mau uso da medicina e da pesquisa científica. A reação mais que necessária foi uma profunda análise dos fundamentos morais e das práticas clínicas em nossa sociedade, assim como da relação entre o homem e o sistema em que habita. Tal reação, dotada de uma vocação interdisciplinar, gerou e fortaleceu a Bioética.

Em meio ao profundo e amplo questionamento de todos os fundamentos prévios de conduta, antigas idéias ressurgiram travestidas de novas máscaras, atentando novamente contra a vida e a dignidade humana. As causas de muitos dos questionamentos e debates agora ressurgiam dentro da própria bioética. Aqui estamos às voltas com a eugenia, o utilitarismo social e uma estranha forma de milenarismo imanentista (transumanismo). Antigos hábitos bárbaros e pré-cristãos como o sacrifício de crianças, deficientes e idosos retornam cada vez com maior força.


A essa regressão da dignidade humana eu chamo Disbioética. 

Disbioética é a Bioética utilizada para a distorção da moralidade relacionada à vida humana. É a Bioética que optou por se devotar à cultura da morte e à destruição de tudo o que ainda resta de sagrado em nossa civilização.

***
Bioethics emerged as a field of study in the sixties, amid the troubled years of authority questioning and profound social changes.

The past century has bequeathed us a succession of horrors arising from war and from the misuse of medicine and scientific research. The most necessary reaction was a deep analysis of the moral foundations and clinical practices in our society, as well as an analysis of the relationship between man and the system in which he lives. This reaction, endowed with an interdisciplinary vocation, generated and strengthened Bioethics.

Amidst the deep and wide questioning of all previous foundations of morality, old ideas resurfaced in new masks, attempting again against human life and dignity. The causes of so many questionings and debates now reemerged within bioethics itself. Here we are again dealing with eugenics, social utilitarianism and a strange form of immanent millenniarism (transhumanism). Old barbaric and pre-Christian habits such as the sacrifice of children, the disabled and the elderly returned with increasing force.

To this regression of human dignity I call Dysbioethics.

Dysbioethics is the bioethics used for the distortion of morality related to human life. It is Bioethics that has chosen to devote itself to the culture of death and to the destruction of all that is still sacred in our civilization.

RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE NOS ESCRITOS HIPOCRÁTICOS

A Relação Médico-Paciente na Obra Hipocrática: Medicina Antiga
Excertos da obra hipocrática que nos ajudam a compreender os deveres atemporais dos médicos
Retirados do Artigo Publicado em Mirabilia Medicinae 7

No Brasil, e em todo o mundo, são muitos os críticos da medicina hipocrática, sendo os seus defensores considerados paternalistas e com uma conduta incompatível com a atualidade. Entretanto, muito pouco se pesquisa sobre os escritos hipocráticos originais, e preconceitos infundados podem ser tomados por verdade sem que se busque nos textos originais e se reflita sobre o pensamento hipocrático, a realidade contemporânea ao autor e as implicações éticas e morais que o seu pensamento compartilha com a boa prática médica na atualidade.

Medicina Antiga 

Qualquer pessoa que coloque isso [métodos e descobertas feitas ao longo do tempo] de lado e rejeite todos esses meios, tentando conduzir uma pesquisa de qualquer outra forma ou por meios diferentes, e afirme que descobriu alguma coisa, será vítima de engano.
Na prática atual da medicina o médico é constantemente bombardeado por novidades, sejam descobertas científicas, sejam novas modalidades terapêuticas. Essas informações se propagam em grande velocidade, chegando ao médico por meio de revistas, noticiários ou dúvidas dos pacientes. 

Entretanto, o bom médico deve possuir os meios adequados para refletir sobre essas informações e guiar a sua boa prática sem se influenciar pela moda de pensamento, pautando-se em evidências. 

Assim como nos tempos hipocráticos, deve o médico sempre estar atualizado e conhecer as bases técnicas e científicas de sua base profissional. Também cabe  ao médico contemporâneo, conforme princípio fundamental expresso no Código de Ética Médica, 

(...) aprimorar continuamente seus conhecimentos e usar o melhor do progresso científico em benefício do paciente. 

O conceito atual de educação permanente, presente nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Graduação em Medicina, também preconiza, desde o primeiro ano do curso de medicina, o mesmo preceito da orientação de Hipócrates. 

Aprender com autonomia e com a percepção da necessidade da educação continuada, a partir da mediação dos professores e profissionais do Sistema Único de Saúde, desde o primeiro ano do curso.

 Além disso, nas normas para pesquisa científica no Brasil, é necessário que o pesquisador trabalhe baseado no que há de mais atual no campo da ciência, e utilizando um método científico rigoroso e evitando agir com nível intolerável de incerteza. 

III.2 - As pesquisas, em qualquer área do conhecimento envolvendo seres humanos, deverão observar as seguintes exigências: a) ser adequada aos princípios científicos que a justifiquem e com possibilidades concretas de responder a incertezas; b) estar fundamentada em fatos científicos, experimentação prévia e/ou pressupostos adequados à área específica da pesquisa;

Ainda na obra Medicina Antiga lê-se que:

É particularmente necessário, na minha opinião, para o que discute esta arte, falar de coisas familiares às pessoas comuns. Pois o assunto de discussão é simplesmente e somente os sofrimentos dessas mesmas pessoas comuns. Para que aprendam sozinhos como os seus próprios sofrimentos surgem e cessam, e as razões pelas quais eles pioram ou melhoram, não é uma tarefa fácil para pessoas comuns. Porém, quando estas coisas são reveladas e demostradas por outros, tornam-se de mais simples compreensão.
Hipócrates demostra que, para o bom relacionamento médico-paciente, é fundamental que o médico esteja apto a conversar em linguagem familiar, isto é, inteligível, e que o doente possa compreender seu estado de saúde. Inferimos que o uso de termos técnicos, embora demostre conhecimento teórico da parte do médico, seja problemático no tocante à capacidade comunicativa com o paciente. Este trecho ressalta a disposição em promover o aprendizado do paciente mediante efetiva comunicação. 

Hoje, é considerada obrigatória a comunicação com o paciente em linguagem acessível, para que o mesmo possa exercer sua autonomia de forma eficaz, o que é um importante princípio bioético contemporâneo.

Nas normas de pesquisa científica do Brasil, o Conselho Nacional de Saúde define também, por exemplo, que a comunicação com o paciente por meio do Termo de Consetimento Livre Esclarecido deve ser feita de forma acessível. 

IV.1 - A etapa inicial do Processo de Consentimento Livre e Esclarecido é a do esclarecimento ao convidado a participar da pesquisa, ocasião em que o pesquisador, ou pessoa por ele delegada e sob sua responsabilidade, deverá: (...) b) prestar informações em linguagem clara e acessível, utilizando- se das estratégias mais apropriadas à cultura, faixa etária, condição socioeconômica e autonomia dos convidados a participar da pesquisa. 

Assim, observa-se desde a antiguidade, a preocupação na comunicação entre médicos e leigos. O trecho também trata da educação em saúde destinada ao paciente, quando ressalta a importância de informar ao paciente sobre as causas, o prognóstico, possíveis tratamentos e fatores que podem piorar a condição de saúde. O objetivo é tornar o paciente apto a cuidar da própria saúde ou de colaborar ativamente com seu médico. 

A educação do paciente em saúde tem sua importância ressaltada, por exemplo, nas Diretrizes Curriculares Nacionais para Graduação em Medicina no Brasil onde, junto com assistência, educação e gestão em saúde, a socialização do conhecimento integra o escopo de ação desejado em sociedade em relação ao médico. 

Art. 19. A Área de Competência de Educação em Saúde estrutura-se em 3 (três) ações-chave: I - Identificação de Necessidades de Aprendizagem Individual e Coletiva; II - Promoção da Construção e Socialização do Conhecimento; e III - Promoção do Pensamento Científico e Crítico e Apoio à Produção de Novos Conhecimentos.

LEIA O ARTIGO COMPLETO EM: MIRABILIA MEDICINAE

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

CONSCIÊNCIA MÉDICA, AUTONOMIA DO PACIENTE E EVIDÊNCIAS - 21º PRINCÍPIO DO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Princípio XXI – A Consciência do Médico e a Autonomia do Paciente




XXI - No processo de tomada de decisões profissionais, de acordo com seus ditames de consciência e as previsões legais, o médico aceitará as escolhas de seus pacientes, relativas aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos por eles expressos, desde que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas.

Há três elementos básicos que entram em ação numa tomada de decisão.

O primeiro é a decisão informada do paciente, que exerce sua autonomia consciente, decidindo que rumo tomar. Cabe ao paciente compreender, se possível, seu estado de saúde e quais opções diagnósticas e terapêuticas são cabíveis.

O segundo elemento é a consciência do médico, que fará o máximo em prol do paciente, mas que também é ser dotado de moralidade própria e que possuirá limites éticos em seu agir.

O terceiro elemento é a adequação da medida diagnóstica ou terapêutica à realidade do paciente, conforme os preceitos científicos. A medicina precisa agir com base nas melhores evidências, embora exista sempre um fator de incerteza em cada ação, o que deriva do fato de que cada pessoa em cada momento oferece uma situação inédita e, em parte, imprevisível.

Quando se fala da autonomia do paciente, pressupõe-se um indivíduo capaz de julgar uma situação de forma racional. Nem sempre este será o caso, como se observa em pacientes com rebaixamento da consciência, menores de idade ou incapazes. É dever do médico restabelecer tal autonomia se possível enquanto recorre aos mecanismos de decisão substitutiva para beneficiar o paciente.

A autonomia do paciente é mais que reconhecida enquanto direito básico e, por parte do médico, obrigação a ser respeitada. Diversos pareceres do Conselho Federal de Medicina apelam ao consentimento esclarecido do paciente como elemento obrigatório[1], incluindo a participação em pesquisas clínicas, a decisão sobre receber transfusão sanguínea, o consentimento em relação a procedimentos diagnósticos e terapêuticos, a reprodução assistida, o uso de terapias experimentais e a revelação de dados do paciente.

Embora o Código Civil brasileiro afirme que “ninguém pode ser constrangido a submeter-se, com risco de vida, a tratamento médico ou intervenção cirúrgica”, há exigências muito mais amplas na prática do que remeter ao paciente a decisão informada somente quando o procedimento em vista ofereça riscos de vida.

A relação entre liberdade de decisão e ação é componente importante da integridade do paciente e, consequentemente, de sua saúde. Logo, respeitar a autonomia do paciente é condição necessária para a boa conduta médica.

Todavia, na relação entre esses três elementos, há inúmeras possibilidades de conflitos. Caberá à Ética Médica e à Bioética a discussão de cada caso para que a melhor decisão seja tomada.




[1] DANTAS, Eduardo; COLTRI, Marcos. Comentários ao Código de Ética Médica: Resolução CFM nº 1.917 de setembro de 2009. 2ª Edição atualizada até julho de 2012. São Paulo: GZ Editora, 2012, p. 35-41.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

COMO DEBATER COM QUEM LHE QUER MAL

COMO CONVERSAR COM QUEM LHE QUER MAL

 



Ben Shapiro é temido por sua capacidade de engajar no combate discursivo. Assisti-lo é quase garantia de ficar impressionado com a forma pela qual ele destrói um a um todos os argumentos de seus adversários.

Se muitos temem o filósofo William Lane Craig por sua lógica implacável e sua capacidade de analisar e destruir falácias, Ben Shapiro, com sua velocidade em destruir o adversário, não fica atrás. A forma pela qual ele vira os artifícios erísticos contra seus oponentes mal intencionados é algo que dá gosto de ver.

Considerando a qualidade deplorável do ambiente político e acadêmico no Brasil, aprender a identificar e se defender da trapaça intelectual é importantíssimo. A obra de Schopenhauer comentada pelo filósofo Olavo de Carvalho – Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão - já se tornou um clássico indispensável no tema, que deve ser apreciado em conjunto com outras obras fundamentais como A Nova Retórica de Chaim Perelman e Lógica Informal de Douglas Walton.

Aos referenciais básicos, pode-se acrescentar um livreto disponibilizado por Ben Shapiro (How to Debate Leftists and Destroy Them: 11 Rules for Winning the Argument), assim como seus vídeos disponibilizados gratuitamente na Internet. São exemplos extremamente úteis - e divertidos - da arte de argumentar e da discussão combativa, lembrando que, aqui no Brasil, todos os espectros políticos usam e abusam de recursos indevidos na hora de pensar e discutir.

Destacarei alguns trechos que nos oferecem uma visão geral da obra. Ben Shapiro demonstra que aquilo que acontece na esfera política não é bonito, não é cordial. É batalha encarniçada e sangrenta, é vida ou morte. Não há espaço para amadorismos. Se ao assistir Ben Shapiro rapidamente lançar argumentos, alguém julga que há somente um raciocínio rápido, engana-se. Há raciocínio rápido sim, e muito preparo, muita estratégia. Conheça um pouco do combate das palavras:

Tudo o que importa é a vitória. Esta é a mensagem que parece ter sido perdida entre os conservadores, que estão constantemente centrados na virtude de sua mensagem, na honestidade intelectual de sua causa e na frustração de observar que ninguém está ligando para essas coisas. É porque conservadores não pensam em como vencer que eles não param de perder.

O problema de muitos conservadores e liberais à direita e ao centro é que simplesmente acreditam discutir com pessoas honestas, e perdem tempo achando que estão num debate intelectual ou moral quando na verdade estão em pleno campo de batalha. Muitos creem compartilhar dos mesmos princípios de seus debatedores, quando na verdade não existem princípios do outro lado e não se tem debatedores, mas sim, detratores e distratores.

Não é de se estranhar que a esquerda busca evitar o debate político a qualquer custo. Por que ligar? Membros da esquerda não estão interessados em debater sobre política. Eles não estão interessados em discutir o que é importante para o país. Estão interessados em debater a tua pessoa. Querem te castigar como o ser humano malvado que tu és justamente por discordar deles. É isso o que faz os esquerdistas serem esquerdistas: um imerecido senso de superioridade sobre o próximo. E se puderem instilar esse senso de superioridade moral em outras pessoas ao fazer de ti o bandido, eles o farão.

A rotulação odiosa, as acusações infundadas e as indignidades lançadas por radicais em discussões são tão ultrajantes que chegam a desconcertar qualquer pessoa bem intencionada e um pouco ingênua que seja. Se o diálogo não é uma dialética saudável, e sim, uma agressiva luta de posições, não espere clemência ou honestidade, e não demonstre fraqueza.

As pessoas na esquerda são ensinadas desde criancinhas sobre como eles são melhores do que os conservadores – isso faz com que se sintam bem ao odiar conservadores. E esse ódio é justificável porque, afinal de contas, todos os conservadores são intolerantes.

O foco de atenção na discussão com alguém intelectualmente desonesto geralmente ocorre em acusações feitas à pessoa em si, e não à suas idéias. É o famoso argumentum ad hominem. Considerar-se monopolista das boas intenções e realizar a redução totalizante do adversário também condiz com importante elemento da mentalidade revolucionária que, em posse de uma santidade autoproclamada, julga o universo e crer ser capaz de reestruturar a realidade, numa verdadeira revolta gnóstica como tantos bons pensadores já acusaram.

O senso de autojustificação moral dos estudantes universitários não deriva de suas conquistas – deriva da crença que tu és uma pessoa má. Tu és um racista e sexista; eles não são.

Com a falsa impressão da pureza dos próprios sentimentos, que tantas vezes desculpam as piores maldades, e com o desconhecimento na natureza humana, o “outro lado” torna-se merecedor de toda repreensão e artifício indevido. Não é de se espantar que existam tantos paredões, gulags, campos de concentração, guilhotinas e extermínios das formas mais excêntricas imagináveis nos regimes revolucionários.

Diante desse inimigo carente de autoconsciência e de caráter, como agir? Shapiro fornece algumas importantes regras.

Regra #1: Rumo à linha de fogo. Esta é uma regra que aprendi de meu mentor Andrew Breitbart. Ele era um tático muito sagaz que entendeu a luta como realmente é: compreendeu que política é guerra por outros meios, e que tu deves tratar a política como tal. Andrew costumava falar que tu deves abraçar a guerra, caminhar rumo à linha de fogo. Explicaria que tu serás alvejado por estilingues e flechas ultrajantes, não importa em que direção caminhe.

Não há calmaria. A paz não existe. Não importa o quão legal e educado tu sejas, eles virão atrás de ti.

Como Aristóteles já ensinava, não se pode debater com quem não compartilha dos mesmos pressupostos. Uma pessoa que deseja debater, frente àquele que deseja somente agredir e humilhar, estará fadada à derrota numa disputa que não iniciou. Frente a alguém que se coloca como hostil inimigo, qualquer demonstração de fraqueza ou condescendência atrairá somente agressão. As regras de um bom debate são rigorosíssimas e, verdade seja dita, são raríssimos aqueles capazes de segui-las no Brasil.

Regra #2: Bata Primeiro. Não leve o primeiro golpe. Bata primeiro. Bata forte. Bata onde marca ponto.

Isso requer pesquisa. Você precisa conhecer seu oponente. Você tem que saber o que ele dirá, quais são suas táticas favoritas e quais serão suas posições típicas. Você precisa conhecer o oponente de dentro para fora.

Não subestime um oponente, não entre despreparado numa altercação. Essa regra não é nova, com certeza, pois já era claramente enunciada por Sun Tzu para o general que desejava vencer a guerra. O problema é que muitos não percebem quando outros movem uma verdadeira guerra.

Regra #3: Enquadre seu oponente. Demonstrei que o guia inteiro da esquerda consiste num único truque: caracterizar a oposição.

Esse truque é extremamente utilizado no Brasil. A esquerda define a si mesma como protetora dos pobres, oprimidos e desvalidos – embora mantenha laços com as maiores fortunas do planeta Terra. Ao mesmo tempo, é a esquerda que define o que é direita e quem deve ser chamado de direita. O resultado: uma totalização maligna de qualquer oposição que empobrece o cenário cultural e político do Brasil, virando uns contra os outros.

A resposta adequada à acusação de que você bate na sua mulher não é explicar que você não bate nela e, na verdade, é um ardoroso feminista. A resposta é mostrar que lançar falsas acusações sem evidências faz de seu oponente um lixo.

A esquerda não tem um manual de regras. Eles têm uma encenação. Uma encenação somente: Você é um mané. Eles têm somente uma ação: dizer que você é malvado! Tire isso deles, e eles não terão mais nada.

Num debate, não se pode permitir que o lado oposto domine as definições dos termos e situações básicas do contexto. É partir da derrota. Desmascare a mentira de forma direta.

Regra #4: Enquadre o debate.

Eles são tolerantes, plurais, guerreiros pela justiça social; se você se opõe a eles, por contraste, você é intolerante, xenófobo e favorável à injustiça social.

O trágico é que as mesmas pessoas que lançam essas acusações tantas vezes tomem parte em depredações, violências físicas e violências verbais, incapazes de agirem com o mínimo de tolerância. Veja o exemplo do que fizeram com o corajoso Professor Rodrigo Jungmann em 2016.[1] É preciso remover a máscara e as falsas acusações e mostrar a realidade como ela é, definindo o contexto da discussão, enquadrando o debate.

Regra #5: Identifique as inconsistências nos argumentos da esquerda. Os argumentos da esquerda estão repletos de inconsistências.

Inconsistências internas que são inerentes à visão de mundo em geral da esquerda. Isso porque poucas pessoas na esquerda admitirão sua agenda verdadeira, que é bem extremista.
No caso do aborto, a esquerda diz que é a favor da escolha, mas ignora a falta de escolha do bebê.

Para se mostrar um santo e revelar como o oponente é diabólico, esquerdistas e demais mal intencionados precisam recorrer a frequentes abstrações, recortes da realidade. A exposição da pobreza existencial de tais recortes falsamente moralistas é um passo necessário para qualquer conversa.

Regra #6: Force esquerdistas a responderem a questões. Esta é, na verdade, um corolário da Regra #4. Esquerdistas somente se sentem confortáveis quando forçam você a responder suas questões. Se eles têm que responder questões, começarão a coçar suas cabeças. As questões que eles gostam de perguntar são sobre seu caráter. As questões que eles não gostam de responder são todas.

Um recurso erístico já bem conhecido é lançar pergunta atrás de pergunta sem deixar tempo para que seu oponente responda adequadamente. A melhor e talvez única forma de responder a este tipo de agressão é parar em uma pergunta de cada vez, devolvendo outra pergunta e batendo o pé até que o oponente a responda. Quem cai no ardil de tentar responder muitas questões maliciosas acaba não respondendo nada e fazendo papel de bobo.

Regra #7: Não se distraia. Você poderá notar que, enquanto argumenta com alguém da esquerda, ele começará a gritar sobre George W. Bush.

Esse recurso erístico é conhecido como Mutatio Controversiae. Quando a coisa começa a esquentar para o lado do sujeito, ele subitamente tenta mudar de assunto. A reação deve ser sempre a insistência no ponto que gerou a tentativa de mudar de assunto, pois ali estará uma fragilidade que amedrontou o oponente.

Regra #8: você não tem que defender as pessoas que estão do seu lado. Apenas porque alguém está do seu lado, não quer dizer que você tem que defender tudo o que essa pessoa diz.

No Brasil, muitos discutem como se tudo fosse uma grande partida de futebol. Nenhum dos lados é perfeito. A direita costuma admitir isso, a esquerda dificilmente admite, e quando o faz, alerta que o “traidor” da causa é na verdade “de direita”.

Regra #9: Se você não sabe de alguma coisa, admita!

Não vale a pena ficar rodeando um ponto no qual você não está capacitado. E será justamente aí que alguém mal intencionado tentará cercá-lo. Se não souber de algo, bola para frente.

Regra #10: Deixe o outro lado obter vitórias sem sentido.

Qualquer um pode dizer algo certo de vez em quando. No Brasil, muitos esquerdistas criticam a mídia, dizendo que não se pode confiar no quarto poder, embora a mídia, de regra, somente faça bajulação da esquerda. Nisso – a falta de confiança que pode ser depositada na mídia – a direita pode concordar com a esquerda. Não vale a pena brigar somente por brigar.

Regra #11: Linguagem Corporal importa.

Não se pode negligenciar o impacto de uma boa apresentação e de uma conduta tranquila.

Outras regras importantes incluiriam a plateia. Se você ousar debater num ambiente já preparado para sua destruição, nenhum argumento importará. As pessoas estarão ali somente para agredir.

Essas regras podem parecer agressivas, mas o fato é que a esquerda ganhou terreno com base na agressividade covarde e na destruição da reputação alheia, e que a destruição cultural que sofremos há décadas nos impossibilitou de participar de um debate qualificado.

Embora as regras sejam de um combativo conservador norte-americano, sua validade para o brasileiro é impressionante.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

COMEÇA O SEFAM 2017-1: BIOÉTICA E RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE

Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina
Bioética em Questão: A Relação Médico-Paciente


A formação de um médico deve buscar sempre a integração entre a ciência e as humanidades, configurando uma preparação para todas as ações humanas necessárias ao auxílio do próximo.

Neste módulo prático e teórico, o objetivo é discutir o preparo humanístico dos alunos e, na prática, inseri-los no contexto de uma aproximação integral à saúde do paciente, utilizando preleções direcionadas e reflexões sobre situações clínicas reais vividas pelos alunos em ambientes ambulatoriais e hospitalares.

Serão discutidas e treinadas desde as ações mais cotidianas no ambiente médico, como a prescrição de uma enfermaria ou a entrevista clínica, até às mais elaboradas técnicas de comunicação com o paciente e compreensão das esferas biopsicossociais.

Considerando o conteúdo teórico, serão discutidos os temas relacionados à formação humanística e filosófica do médico. Um ponto de destaque neste módulo será a discussão da Filosofia da Medicina de Edmund Pellegrino.

As aulas serão de livre acesso para todos os interessados.

CRONOGRAMA 

Para o Bem do Paciente 1, a filosofia de Edmund Pellegrino
Lançamento de livro: A Tradição da Medicina
Para o Bem do Paciente 2, A Esfera Moral e Social da Relação Médico-Paciente
Para o Bem do Paciente 3, os Limites do Modelo de Autonomia e do Modelo Paternalista
Hospital Maternidade São José: Práticas na Relação Médico-Paciente
Para o bem do paciente 4, o modelo beneficente
Hospital Maternidade São José: Práticas na Relação Médico-Paciente
Encerramento das atividades.

BIOÉTICA
Uma Introdução ao Estudo da Vida e da Moralidade

A Bioética é uma das mais fascinantes áreas interdisciplinares da atualidade. Seu escopo inclui a pesquisa, as relações humanas, os avanços tecnológicos em saúde, questões civilizacionais de extrema importância e toda a experiência humana num enfoque voltado à saúde.

Este curso apresentará ao participante as principais discussões e características dessa área que é tão complexa e necessária para a discussão acadêmica e científica hoje em dia.

Introdução. O que é Bioética? A história das pesquisas antiéticas e o surgimento da Bioética no contexto da evolução tecnológica.

Bioética e o início da vida. Aborto. Eugenia. Experiências em fetos e embriões.

Bioética e o fim da vida. Eutanásia. Suicídio assistido. Suicídio. Distanásia. Ortotanásia. Mistanásia. Contenção de despesas e limites assistenciais.

Bioética e Pesquisa. Transumanismo. Informação genética e bioética. Manipulação genética. Clonagem.

Bioética, Ambientalismo e Política. Filosofia da Ciência.

Bioética e as raízes da civilização. Grandes debates: Bioética e a objeção da consciência.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O ABORTO ENQUANTO TRAIÇÃO

ABORTO ENQUANTO TRAIÇÃO DA VOCAÇÃO MÉDICA


Se o governo e a elite maravilhosa querem matar fetos e bebês, que criem uma escola de carrascos e executores e deixem a profissão médica em paz. Que não corrompam os médicos.

Da obra Faith & Wellness, de Rushdoony.



"The pro-life and the pro-abortion people both have strong convictions on the question of abortion, but they are agreed on one thing. They do not trust “most doctors.” It took me a while to realize this, and it came out only accidentally and/or unconsciously from pro-abortion people, but abortion has affected their view of doctors. Such a person will go to a doctor for an abortion, but can you trust a man with your life who takes life for money? (...) Psychologically, this has taken a fearful toll on the public image of doctors."

"Abortion is murder, and it is murder of a particularly repulsive sort. Many nurses report on the horrors which are commonplace in the medical practice of abortionists. Any pro-life group can give us a vivid account of what these are. These horror stories, however, are not necessary when it comes to assessing these doctors. A doctor’s calling is healing and health. The word for salvation in the Latin is salve, “health,” and both Old and New Testaments speak of salvation as the total health and restoration of man, in all his being, into the fullness of life in the Lord."

"For a doctor to become a murderer is to turn his vocation upside down. It involves, not failure or incompetence, but a reversal of all moral order. It turns his calling into a perversion."

"It thereby alters the relationship of the patient to the doctor. That relationship, with all its privacy and privilege, is intended to be a healing one. It is a medical form of the confessional, and its purpose and goal is healing. A false confessor, whether in the church or in medical practice, is a great evil, and a menace to the life of the one who seeks healing."

"Our world today is marked by a love of death and a hatred for life, and hence its anti-Christianity, and hence abortion."


"One nurse once described abortion to me as “the biggest financial bonanza ever to hit medicine.”

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

MEDICINA NÃO É COMÉRCIO. 20º PRINCÍPIO DO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Princípio XX – Saúde não é um produto


XX - A natureza personalíssima da atuação profissional do médico não caracteriza relação de consumo.

Esse princípio procura deixar bem claro que a relação médico-paciente não pode ser entendida como relação comercial, na qual alguém adquire um simples produto.

A atuação do médico não é prover um fim, mas sim, prover meios para que um fim possa ser alcançado. O ato médico não pode controlar totalmente os resultados da prática. Cada paciente é único, e nem toda a ciência do mundo pode prever o resultado com absoluta certeza e garantia.

Feitas todas essas observações, deve-se lembrar de que a prática médica é julgada sob os elementos do Código de Defesa do Consumidor[1]. Neste momento, alguém poderia questionar se não há contradição em dizer que a relação não é de consumo e o julgamento se dá por um código legal de consumidores.

Na verdade, o Código de Defesa do Consumidor abrange as características profissionais prezadas pela medicina em suas definições, e continuará a servir como parâmetro enquanto uma lei específica não for elaborada para a prática médica assim como o foi para a prática dos advogados.

A relação de consumo que ocorre na medicina é de caráter especial, pois envolve aspectos claramente não comerciais: angústia, insegurança, medo, esperança e busca pelo consolo e pela cura. Diz-se consumo porque há prestação de serviços por um “fornecedor” mediante remuneração.

O próprio código prevê condições especiais para as profissões liberais, ao esclarecer em seu artigo 14, no parágrafo 4º, que “a responsabilidade dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação da culpa.” Isso significa que a lei não pode ser acionada simplesmente porque um procedimento cirúrgico não deu certo, como se fosse uma mercadoria estragada, mas somente quando houver suspeita de ligação entre o insucesso de um tratamento ou procedimento e a má prática médica como agente causal do agravo.

Observando essa relação especial de consumo entre um paciente fragilizado e um profissional que assume responsabilidade por ajudar mediante contrato – e às vezes gratuitamente -, deve-se ressaltar situações de potencial conflito na realidade atual do cuidado com a saúde.

Entre médicos e pacientes, inúmeros elementos comerciais podem interferir, agindo como verdadeiros intermediadores comerciais e reduzindo a percepção do ato médico a um mero produto. O médico é exposto como um simples contato num livro de convênio, onde o paciente, a la carte, o escolhe tantas vezes sem o conhecimento pessoal ou a indicação de um amigo. O paciente já não é paciente do médico Fulano de tal, é paciente do Plano de Saúde, do Convênio ou do SUS. Sem a relação pessoal estabelecida, os benefícios especiais do médico enquanto agente terapêutico per se podem ser irremediavelmente suprimidos.

Não podemos viver de ilusões e sonhar em concretizar uma relação médico-paciente ideal, que nem no passado era perfeita, mas também não podemos abrir mão dos altos ideais que mantêm vivo o projeto de uma medicina realmente benéfica. O médico deve integrar à realidade os altos valores tradicionais da boa medicina e aprender a adaptar sua relação com o paciente frente aos desafios impostos pela prática contemporânea. Num contexto em que interesses comerciais podem interferir a todo o momento, o médico será o principal elemento de humanização, que qualificará o tratamento dado ao paciente em necessidade.




[1] Código de Defesa do Consumidor. Lei nº 8078, de 11 de novembro de 1990.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

A RESPONSABILIDADE PELOS PRÓPRIOS ATOS - 19º PRINCÍPIO DO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Princípio XIX – Ato Médico e Responsabilidade




XIX - O médico se responsabilizará, em caráter pessoal e nunca presumido, pelos seus atos profissionais, resultantes de relação particular de confiança e executados com diligência, competência e prudência.

O exercício da medicina é prática personalíssima, e o médico não pode se esquivar da responsabilidade de seus atos, tampouco assumir responsabilidade por atos que não praticou, sejam para o bem, sejam para o mal.

Em algumas especialidades, observa-se o fenômeno do cirurgião fantasma. Um paciente é operado por um cirurgião desconhecido acreditando que quem lhe opera é seu médico assistente. Tal enganação, obviamente, é contrária aos preceitos éticos da Medicina. Tal constatação não quer dizer que equipes médicas não possam ser formadas, e que um médico excelente em determinado tipo de cirurgia não possa ser aquele que opera a todos os pacientes possuidores de determinado diagnóstico; quer dizer que seu trabalho deve ser reconhecido.

Ser responsável pelo que faz preconiza a ação prudente, competente e cuidadosa (ou diligente), o inverso ético dos critérios de comprovação do erro médico: imprudência, imperícia e negligência.

Genival Veloso de França lembra um ponto importante ao ressaltar que:

“Uma parcela da sociedade já entende que a maior desgraça de um paciente é cair nas mãos de um médico inepto, e que de nada lhe serviram a compaixão, o afeto e a tolerância sem o lastro científico. O primeiro dever do médico para essa pessoa seria a habilidade e a atualização dos seus conhecimentos juntos aos avanços de sua ciência. Todavia é elementar que a medicina não pode resumir-se a simples condição técnica, apesar dos excelentes e vertiginosos triunfos, pois é em verdade uma atividade inspirada em valores ditados por uma tradição que, embora distante, conserva-se na mente de todo médico.”[1]

Se houver dúvida quanto ao papel do médico envolvido num erro médico, caberá a quem acusa comprovar o nexo causal entre o ato médico profissional e o dano observado no paciente. Da perspectiva ética profissional, espera-se que o médico assuma uma possível falha, embora do ponto de vista jurídico ninguém seja obrigado a fornecer prova contra si mesmo, e persista a necessidade de diferenciar uma causalidade culposa ou dolosa de uma fatalidade.



[1] FRANÇA, Genival Veloso de. Comentários ao Código de Ética Médica 6ª edição. Rio de Janeiro, RJ: GEN Guanabara-Koogan, 2010, p. 35.

O BOM CORPORATIVISMO - 18º PRINCÍPIO DO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Princípio XVIII – Respeito e o Bom Corporativismo


XVIII - O médico terá, para com os colegas, respeito, consideração e solidariedade, sem se eximir de denunciar atos que contrariem os postulados éticos.

Há duas formas de corporativismo. A pior é aquela que defende a classe e procura blindá-la contra a justiça, encobrindo seus erros e maquiando a verdade. Essa forma deve ser proscrita.

Sob essa concepção é que se recomenda ao médico denunciar formalmente os erros que observa em seu cotidiano profissional. O que deve ser feito diretamente no Conselho Regional de Medicina ou no Comitê de Ética Hospitalar.

Por outro lado, a melhor forma de corporativismo é aquela que, preocupada com a honra pessoal e profissional, age com solidariedade e respeito.

Pontos básicos que fazem da medicina uma profissão incluem a sua vocação para a beneficência e o respeito à vida humana, a busca pela excelência profissional capaz de promover essa beneficência e a manutenção da honra profissional, como elemento coadjuvante na cura do paciente e na proteção das boas práticas e do conhecimento médico adequado.

Essa concepção de que um bom corporativismo deve subsistir é antiga entre os médicos. Segundo Thomas Percival,

O Esprit du Corps é um princípio de ação fundamentado na natureza humana e que, quando apropriadamente regulamentado, é racional e louvável. Todo homem, quando entra numa fraternidade, compromete-se tacitamente a não apenas submeter-se às leis, mas a promover a honra e o interesse da associação, desde que tais sejam compatíveis com a moralidade e o bem geral da humanidade. Um médico, portanto, deve zelar cuidadosamente para evitar qualquer dano à respeitabilidade geral de sua profissão; e deve evitar qualquer apresentação desdenhosa da escola médica em geral; evitar todas as queixas gerais contra seu egoísmo ou improbidade; e evitar a indulgência frente a um ceticismo jocoso ou afetado frente à eficácia ou utilidade da arte de curar.[1]

Dessa forma não cabe ao médico expor problemas pessoais ou de outra ordem entre ele e seus colegas à frente do paciente, o que serviria somente para reduzir a confiança que o paciente deposita neste médico em questão e em todos os demais, prejudicando muitas vezes seu prognóstico.

Também não cabe ao médico desmerecer a conduta alheia sem a respeitosa comunicação com o colega que viu antes o paciente. Seja numa enfermaria de hospital ou num consultório particular, podemos julgar mal uma conduta tomada previamente, quando o paciente encontrava-se em outro estado, manifestando sintomas e sinais em diferentes estágios.

Caso um erro claro seja identificado, cabe ao médico tomar as necessárias e corretas atitudes com o fim de resguardar a honra profissional. Tais atitudes podem variar de um contato pessoal com o colega que errou, buscando instruí-lo em tom fraternal, até o contato direto com as instâncias processuais presentes no Conselho Regional de Medicina e na justiça cível e penal.



[1] PERCIVAL, Thomas. Extracts from the Medical Ethics of Dr. Percival. Philadelphia, 1823, p. 18.